Um pouco de fantasia, tudo bem. Ninguém vai ao cinema para ver tratados de ciência. Mas enquanto alguns filmes apóiam o sonho em informações coerentes com o conhecimento científico, outros violam impiedosamente as leis da natureza. Batalhas interespaciais, dinossauros no século XX e insetos monstruosos são coisas que só vemos no cinema, claro. E é justamente por tratar de situações inusitadas como essas que os filmes de ficção científica atraem. Quem gosta mesmo desse tipo de história, no entanto, levanta mais satisfeito da poltrona quando sente que a fantasia está bem respaldada em doses corretas de realidade. É por isso que checar a credibilidade científica dos filmes de ficção pode ser uma atividade tão divertida quanto assisti-los.
Algumas curiosidades praticamente IMPOSSÍVEIS:
Quanta Irresponsabilidade!
O Super-homem arriscou demais em Superman IV: Em Busca da Paz (1987), ao levar a mocinha ao espaço. Se o filme fosse cientificamente correto, ela morreria de frio, pois não resistiria a temperaturas inóspitas, abaixo de -250 graus celsius, ou sucumbiria diante da falta de oxigênio. Além disso, estaria exposta a radiações cósmicas nocivas. Outro passeio espacial absurdo foi empreendido pelo herói em Superman, o Filme (1978). Voando velozmente em torno da Terra, ele reverte sua rotação, fazendo o tempo voltar. Mesmo que isso fosse possível, não daria certo, pois não há qualquer relação entre a rotação da Terra e o passar do tempo. Ainda nesse filme, ao levantar uma enorme rocha, na tentativa de conter um terremoto, o Super-homem afronta a Terceira Lei de Newton, segundo a qual para cada força existe outra igual, em direção oposta. No caso, a força contrária exercida pela rocha deveria enterrar o herói no chão - não importa a sua superforça, as rochas abaixo dele é que não suportariam o peso levantado.
LEIS DE NEWTON:
Três leis que estabeleceram as bases da ciência da dinâmica. A primeira lei - que é a Lei da Inércia - afirma que todo corpo continua em estado de repouso ou em movimento retilíneo uniforme, a menos que sofra ação de uma força externa. A segunda lei estabelece que a taxa de mudança do momento é proporcional à força aplicada na mesma direção. Em situações em que a massa é constante, essa lei iguala a força F ao produto da massa m pela aceleração a, de acordo com a equação F=ma. E a terceira lei exprime que para cada força aplicada, ou ação, há uma força igual , ou reação, que atua na direção oposta. A consideração fundamental ao se aplicar as leis de Newton é que elas são relativas apenas a sistemas de referência inerciais (aqueles que estão em repouso, ou se movem a uma velocidade constante). Uma vez que a Terra gira sobre si mesma, ela não é um sistema inercial no sentido estrito. As leis de Newton não explicam alguns dos fenômenos observados no movimento planetário.
Perigo na Enterprise
A teoria sobre o combustível da nave Enterprise, da série Jornada nas Estrelas, é perfeita. Ela seria movida graças à colisão de matéria (átomos com núcleos positivos e elétrons negativos) com antimatéria (núcleos negativos e elétrons positivos), o que, de fato, é a maneira mais eficiente de gerar energia. Mas há um detalhe que não se esclarece. Uma reação como essa emitiria fótons de altíssima potência energética, difíceis de ser controlados, que poderiam se espalhar pela nave, colocando a tripulação em perigo. Outro fenômeno, o teletransporte , do qual a série abusa, também não se explica. Os átomos do organismo teriam que ser convertidos em impulsos elétricos (energia), que, depois, seriam reconvertidos em carne e osso. Mas o único meio de transformar a matéria em energia é a reação explosiva com a antimatéria, que não deixaria um só átomo inteiro para depois ser retransformado.
ANTIMATÉRIA:
Matéria constituída de antipartículas. Matéria é a substância de todo objeto físico do universo conhecido. A matéria se compõe de três partículas elementares: elétron (e¯), próton (p) e nêutron (n). Das variadas combinações de nêutrons e prótons, originam-se os núcleos atômicos já identificados - umas poucas centenas. O próton tem carga positiva, e é partícula mais pesada. O elétron tem carga negativa, e é uma partícula muito mais leve. Os nêutrons não têm carga elétrica. A antimatéria é constituída da associação de partículas elementares simétricas a essas, com a mesma massa e a mesma carga de seus coletivos na matéria comum - mas com sinal invertido. Essas antipartículas são o posítron (e+), o antipróton (p¯) e o antinêutron (n¯).
ENERGIA:
Capacidade que os objetos ou sistemas têm de realizar trabalho a partir de seu estado de movimento - é, portanto, uma medida do estado de um sistema físico. A habilidade de mover corpos, realizando assim o trabalho, é chamada de energia cinética. A energia pode assumir diferentes formas, pode ser transferida de um corpo para outro e pode também ser convertida de uma forma para outra. Grande parte da energia é convertida em calor.
POTÊNCIA: Taxa de realização de um trabalho ou taxa de transferência de energia. Potência é uma grandeza escalar medida em watts, unidade do Sistema Internacional que equivale a um joule por segundo.
Absurdos até debaixo d'água
Alguns princípios fundamentais sobre a vida debaixo d'água são desrespeitados no filme O Segredo do Abismo (1989), a respeito do surgimento de alienígenas no fundo do mar. É sabido que conforme se desce no mar a pressão da água aumenta linearmente. A 1 000 metros de profundidade, a pressão é 98 vezes maior do que na superfície do planeta. No filme, um mergulhador desce até perto de 6 000 metros, em apenas trinta minutos. Se fizesse isso de verdade, ele morreria esmagado. No final, os alienígenas expulsam a estação submarina desde 600 metros de profundidade até a superfície, também em minutos. Mudança tão rápida, sem uma descompressão lenta, deveria ter matado toda a tripulação.
PRESSÃO DA ÁGUA:
A pressão em um líquido é o produto de sua densidade e profundidade, multiplicado pela aceleração da gravidade.
Corpanzil com falta de ar
O clássico O Mundo em Perigo (1954), é pioneiro num tema comum no cinema: a produção de monstros por mutação genética. Nesse caso, explosões atômicas dão origem a formigas gigante. Só que o tamanho dos bichos não leva em conta a relação entre massa e volume. Um cubo de 1 metro de lado, por exemplo, tem superfície de 1 m2 e volume de 1 m3 . Dobrando o comprimento dos lados, a superfície aumenta quatro vezes - 2 m x 2 m = 4 m2 - e o volume oito vezes - 2 m x 2 m x 2 m = 8 m3. Assim, o peso também aumenta oito vezes. A superformiga, 100 vezes mais comprida que o normal, não agüentaria o próprio peso - ele cresceria 1 milhão de vezes. Outro problema: formigas respiram por difusão passiva de ar, ou seja, o ar apenas passa pelo seu corpo. Com o corpo maior, o oxigênio não poderia chegar a todas as células com a rapidez necessária.
PESO:
Força resultante exercida sobre um corpo pelo campo gravitacional no qual ele está situado. É uma grandeza vetorial, desde que possui a direção da massa. Sua unidade no Sistema Internacional é o newton. O peso de um corpo é representado pelo valor de sua massa multiplicado pela aceleração da gravidade. Ele diminui em altitudes acima da superfície da Terra. A ausência de peso ocorre com um corpo que cai livremente.
Epidemia de enganos
Se a medicina funcionasse como no filme Epidemia (1994), a Aids seria tão curável quanto um resfriado. O enredo trata de um vírus letal, como o Ebola, e a produção de um soro contra ele acontece em questão de minutos, algo impossível. Os processos usados para produzir soro demandam, pelo menos, uma semana. Depois seria preciso mais um mês de testes de segurança. Outra proeza: com o sangue de um único macaquinho faz-se soro para centenas de pessoas. Para se ter uma idéia, uma cobaia de 450 gramas pode fornecer, no máximo, 10 miligramas de soro anti-rábico por mês, menos do que é necessário para tratar um só adulto com raiva. Para completar, a recuperação ultra-rápida de pacientes já muito doentes também é coisa que só acontece no cinema.
Vôo impossível
A rigor, o carro futurista de Blade Runner (1982), não poderia voar. Aviões voam porque a forma aerodinâmica da asa - curva em cima, reta embaixo - faz com que o ar demore mais para passar por cima, produzindo uma diferença de pressão. Mas o carro de Blade Runner não tem asas nem foguetes. Supõe-se que funcione como os hovercraft, veículos que se movem sobre um colchão, que vai expulsando ar por pequenos orifícios na sua parte de baixo. Mas para voar assim ele teria que ter, embaixo do chassi, lâminas semelhantes às asas de avião. Pelo que se pode observar do carro, no entanto, ele não possui essas lâminas ou elas são pequenas demais, e, portanto, insuficientes para levantá-lo do chão.
AERODINÂMICA:
Parte da física que estuda o movimento do ar ou outros fluídos gasosos com relação aos corpos imersos neles, e das forças que consequentemente são produzidas. Aplicada à engenharia mecânica e aeronáutica, visa desenvolver um projeto de veículo móvel em que sejam reduzidas ao mínimo as resistências que o meio opõe ao corpo em movimento.
PRESSÃO:
Quociente entre a força exercida sobre uma superfície e a área desta. A unidade de pressão no Sistema Internacional é o pascal (Pa), que é definido como 1 newton por metro quadrado. Em meteorologia a unidade comumente utilizada é o milibar (mb), que é equivalente a 100 Pa> Outra unidade, que é usada em certos barômetros e na medida da pressão arterial é o milímetro de mercúrio (mm de Hg).
Fantasia coerente
Exceção à regra, o filme O Enigma de Andrômeda (1971) prima pelo rigor científico. Num laboratório subterrâneo, pesquisadores tentam identificar um misterioso microorganismo vindo do espaço. Eles usam, corretamente, filtros para checar o tamanho das partículas e microscópios para estudar sua estrutura. Também fazem análises químicas para verificar se há material genético ou proteínas semelhantes aos que existem na Terra. Concluem que o bicho tem estrutura parecida com a dos vírus, mas é capaz de se reproduzir sem parasitar uma célula. Pode ser que em alguma parte do universo exista algo assim, pode ser que não, mas as informações do filme são coerentes com fatos conhecidos pela ciência.
Errinho de proporção
Em geral correto, 2010, o Ano em que Faremos Contato (1984), não escapa de alguns escorregões e pelo menos um deles merece ser citado. No final do filme, os astronautas encontram sinais de vida em Europa, uma das luas de Júpiter, e, para torná-la mais agradável, dão um jeito de transformar o planeta em um novo Sol. Porém, segundo os astrofísicos, para uma estrela existir ela deve ter massa equivalente a, pelo menos, 3 000 vezes a da Terra. Só assim a pressão interna seria alta o suficiente para aumentar a temperatura a ponto de fundir os átomos, no processo conhecido como fusão nuclear, que é o motor do brilho das estrelas. E Júpiter tem apenas 318 vezes a massa da Terra.
Misticismo e manobras improváveis
Os efeitos especiais não escondem alguns defeitos científicos nos filmes da série que nasceu com Guerra nas Estrelas (1977). Não há nada que explique, por exemplo, a habilidade dos cavaleiros de Jedi de mover objetos com a mente, como ocorre nas famosas lutas com sabres de luz de O Império Contra-ataca (1980). O funcionamento do cérebro simplesmente não produz energia suficiente para fazer levitar objetos. As manobras dos caças em Guerra nas Estrelas são igualmente absurdas. Aviões manobram porque têm superfícies móveis que interagem com o fluxo de ar. No vácuo do espaço não há como utilizar flaps e estabilizadores. Para compensar, no começo de O Império Contra-ataca há passagens fiéis aos princípios da termodinâmica. É correta a decisão de abrigar do frio, dentro da barriga de um animal morto, um personagem ferido. Como o bicho havia acabado de morrer, ele conservaria por algum tempo certa quantidade de calor interno. Também é certa a decisão de usar o gelo para construir, em volta do ferido, uma espécie de iglu. Ele serve de isolante térmico porque a neve tem bolhas de ar presas que impedem a fuga de calor.
TERMODINÂMICA:
Ramo da física relacionado com a natureza do calor e com sua associação a outras formas de energia. Fundamenta-se em três leis. A primeira estabelece que a energia de um sistema não pode ser criada nem destruída, mas pode ser transformada em uma outra forma de energia. A segunda lei estabelece que o calor sempre flui de um corpo de temperatura mais alta para um com temperatura mais baixa, e que é impossível o calor de um corpo frio fluir para um corpo quente, tornando-o ainda mais quente. A terceira lei estabelece que as diferenças em entropia entre os diferentes estados de uma substância aproxima-se de zero à medida que a temperatura aproxima-se do zero absoluto. A conseqüência prática é que é impossível esfriar um corpo além do zero absoluto. Uma lei adicional, conhecida como lei zero, estabelece que se dois sistemas estão em equilíbrio térmico com um terceiro sistema, então estão em equilíbrio entre si.
QUANTIDADE DE CALOR:
Calor é a energia transferida de um corpo para outro devido a uma diferença de temperatura entre eles.
A quantidade de calor é igual o produto da massa, pelo calor específico, pela variação de temperatura de um corpo:
Um corpo, ao trocar uma quantidade de calor com o exterior, apresenta uma variação de temperatura. Chamamos isso de capacidade térmica.
O calor latente de mudança de estado (L) é a quantidade de calor necessária para que 1g de certa substância mude de estado. Princípio das Trocas de Calor:
Quando dois ou mais corpos, a temperaturas diferentes, são colocados no interior de um recipiente termicamente isolado, eles trocam calor entre si, até atingirem o equilíbrio térmico. A soma das quantidades de calor trocados é zero: Princípio das Transformações Inversas: Quando um sistema cede certa quantidade de calor ao sofrer uma transformação receberá a mesma quantidade de calor ao sofrer a transformação inversa.ISOLANTE TÉRMICO:
Material destinado a impedir a passagem de uma corrente de condução. Neste caso aqui citado, é destinado a impedir a transmissão de calor. É também chamado de vaso adiabático. O processo de transmissão de calor pode ocorrer de três formas: por condução, por convecção e por radiação. - Por condução: A propagação de calor ocorre de molécula a molécula, sem que haja transferência de matéria. - Por convecção: A transmissão de calor se processa através de meios fluidos (correntes de convecção), devido à diferença de densidades. Neste caso, há transferência de matéria. - Por irradiação: A irradiação térmica é a emissão de energia térmica na forma de ondas eletromagnéticas. Essas ondas se propagam na velocidade da luz, e são transmitidas através do vácuo - não precisando de meio material para se propagarem.
Gravidade artificial
A estação espacial em forma de roda de 2001, uma Odisséia no Espaço (1968), é mostrada como tendo um ambiente com gravidade semelhante à da Terra. Isso é possível. Um objeto grande, girando em torno do seu próprio eixo a uma velocidade adequada pode reproduzir no seu interior um efeito próximo ao da gravidade terrestre. Em outra cena, a ausência de peso dentro de uma espaçonave que não gira como a estação espacial também faz sentido. Por isso, a espaçomoça pode andar pelas paredes desde que tenha um sapato equipado com material aderente.
GRAVIDADE:
Uma das quatro forças fundamentais da natureza. É uma força atrativa e está sempre presente entre dois corpos que têm massa. Há mais de 300 anos, Newton demostrou três teses a respeito da aceleração gravitacional: é diretamente proporcional às massas dos corpos em interação; diminui com o inverso do quadrado da sua distância mútua; e está dirigida ao longo da reta que une os centros das massas. O fato de objetos sem sustentação caírem no solo, assim como o fato de podermos permanecer em pé sem nos desvincular da superfície da Terra, ou ainda os planetas manterem sua órbita em torno do Sol, são os exemplos mais evidentes dos efeitos da atração gravitacional que ocorre na natureza.
Amontoado de dúvidas
A idéia central de Viagem Insólita (1987), filme sobre a miniaturização de um submarino e seus tripulantes para uma viagem dentro do corpo humano pode ser fascinante, mas é completamente improvável. De cara, há uma violação da lei da conservação de energia, segundo a qual ela não pode ser criada ou destruída, mas apenas transformada de uma forma em outra. Então, o que acontece com o resto da energia, em forma de matéria, do submarino e das pessoas quando elas se miniaturizam? Segundo, qual processo miniaturizou o que já é uma miniatura - o átomo e suas partículas constituintes? E de onde vem a energia que faz tudo voltar ao normal depois da aventura? São perguntas que o filme não responde. Muito menos a ciência.
LEI DA CONSERVAÇÃO DE ENERGIA:
Primeira lei da Termodinâmica que estabelece que o valor de uma grandeza física, associada a um sistema isolado, permanece inalterado ao longo da evolução temporal do sistema, desde que ele não interaja com um outro sistema. A lei da conservação de energia desempenha um papel fundamental nas teorias físicas; pois está ligada às propriedades de simetria do espaço-tempo, suposto homogêneo e isótropo.
Energia que vem do nadaO robô de metal líquido de O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991), é incrível: ele se transforma naquilo que toca e, quando destroçado, se recompõe rapidinho. Mas a ciência não justifica tais poderes. Primeiro, o robô não conta aparentemente com nenhuma fonte de energia para suas peripécias. Além disso, não se sabe de um mecanismo que permita às moléculas mudar sua estrutura atômica para se transformar em outros objetos. Ao promover uma viagem no tempo, o filme também viola a lei da conservação de energia, segundo a qual não se pode criar nem destruir energia, apenas transformá-la. Assim, a quantidade dela no mundo é sempre a mesma. Seria, portanto, impossível adicionar energia em forma de matéria no mundo do passado - ou retirá-la do mundo do futuro.
Evolução a jatoA história de O Planeta dos Macacos (1968) é curiosa e desconcertante. Os chimpanzés evoluíram e se tornaram a espécie dominante do planeta, tomando o lugar do homem. Até aí, tudo bem, mas o filme se passa no ano de 3978, o que constitui um forte empecilho à sua consistência. Os primeiros hominóides - ancestrais dos primatas atuais - surgiram há 20 milhões de anos. Os primeiros hominídeos - ancestrais do homem - aparecem no registro fóssil há 10 milhões de anos. O ser humano como é hoje surgiu há 300 000 anos. Logo, 2 000 anos é pouco tempo para o chimpanzé evoluir.