Perfil
do Profissional do Ensino no Novo Milênio
Maria
Lourdes Urban1
O
perfil do Profissional do Ensino2 não
muda porque estamos entrando num novo milênio, mas
pelo imperativo das inovações em todas as áreas do
saber, do fazer, do ser e da tecnologia. Somos
impelidos também pela força da nova LDB 9394/96 que
propõem uma revolução no Ensino Básico, desde a
Educação Infantil, passando pelo Ensino Fundamental
e culminando no que chamam de Novo Ensino Médio.
Quando
começamos a vasculhar a bibliografia sobre avanços
pedagógicos, percebemos avanços com registros
fundamentados, nas últimas três décadas. A nossa
História da Educação é muito jovem e ainda estamos
aprendendo o que melhor nos convém. O Brasil começa
a definir e estruturar a Educação em 1930 com o
movimento denominado " Escola Nova",
trazendo em seu bojo, propostas inovadoras para a época
como a laicidade do ensino, a coeducação dos sexos,
a escola pública para todos e a revolução pedagógica
de centrar o ensino no aluno, e não mais nos
programas e/ ou professor, como na " Escola
Tradicional" - o que vem ratificado na nova e 4a.
LDB 9394/96.
Alguns
estudos informam sobre a dificuldade de se ter informações
completas e exatas acerca do saber, das atitudes e das
crenças dos professores e das condições em que se
espera que eles levam a cabo o seu trabalho, já que são
os árbitros finais de quaisquer mudanças que
ocorram, sendo, portanto, importante ter informação
segura acerca da maneira como tomam decisões e fazem
escolhas que estão no centro de suas ações, nos
avisa Gallagher ( 1989,1990). Silva & Tunes (1999)
dizem que " no seu trabalho diário, o professor
está produzindo conhecimento a partir de suas ações
e das ações do aluno e, ao mesmo tempo, engendrando
modos de chegar aos objetivos que formulou, praticando
com base no seu conhecimento." Mais adiante
concluem:" a situação do ensino constrói não
apenas o aluno, mas também o professor, pois (...)
ele também é um sujeito em construção no processo.
A reprodução da estrutura do ensino na sala de aula
é um ponto importante a se considerar na elaboração
dessa noção. De modo geral, podemos supor que é difícil
para o professor ver-se como agente transformador da
estrutura social, pois ele sequer consegue influenciar
a estrutura à qual está submetido. Se o próprio
professor não é autônomo, sendo restringido pelo
papel que é forçado a desempenhar pelas instâncias
superiores, então seria, para ele, difícil agir no
sentido de dar autonomia ao aluno."3
Como
temos constantes orientações novas na área da Educação,
pouca ou nenhuma experiência em sala de aula pode ser
testada e avaliada em profundidade - o que requer um
arco de tempo de 10 a 15 anos - para, depois se poder
dizer, o que vale ou não a pena ser continuado. Ao
lado disso exerce a sua influência, a formação
universitária e a personalidade do professor que, em
sala de aula, decide o que e como vai fazer. Vai
determinar os seus objetivos, metodologia e avaliação,
embasados em teorias e autores que acredita. Há ainda
os parâmetros fixados pela Direção da Escola ou
outras orientações públicas, já citadas. Somam-se
a isso, as condições de trabalho, material pedagógico
disponível e a remuneração. Corroborando o que se
afirmou, citamos a conclusão de Ricardo Gauche e
Elizabeth Tunes, num artigo sobre O professor, a
indústria dos cursinhos, a universidade e as
perspectivas de inovação no processo educacional:
" As inovações educacionais, certamente,
passam pelo exercício da autonomia do professor. Há
inúmeros fatores que, historicamente, vem
contribuindo para a perda constante da autonomia pelo
professor. Um deles é a padronização da atuação,
muitas vezes estimulada pela adoção, por parte de
quem dita as políticas educacionais, de métodos e
teorias relacionadas ao ensino. Temos assistido, ao
longo de algum tempo, ao aparecimento e
desaparecimento de modelos que são propostos para,
oficialmente, orientar o ensino. Os resultados têm
estado, quase sempre, muito aquém do que os
anunciados. (...) as inovações educacionais somente
são possíveis em um contexto de liberdade de
experimentação e de criatividade. "4
Atualmente,
percebem-se inovações, nem sempre perceptíveis ao
observador desavisado, no novo perfil do professor que
se concretiza no seu agir profissional. Temos a
elaboração, por todos os integrantes da Escola, da
Proposta Pedagógica, do plano de trabalho. O
Profissional do Ensino é desafiado a atuar
criticamente na elaboração e execução dos projetos
sociais, na indicação do material pedagógico que é
proposto ao aluno, e decidir sobre metodologia na
busca da construção do conhecimento em sala de aula,
bem como no uso de outras tecnologias. Temos
indicadores de mudanças também nas questões dos
vestibulares, relatos de experiências em congressos
ou exposições didático-pedagógicas. Isso tudo é
uma fonte de tensão e avaliação constantes para o
professor que precisa buscar urgente atualização e
prosseguimento de estudos para poder fazer frente aos
novos conhecimentos e interpretações.
O
Profissional do Ensino está ganhando um novo rosto e
um novo valor no mercado das profissões, porque a
crise está em toda parte, então, a Escola - como
emprego - surge como uma luz. Mas as leis são claras
e pedem qualificação e só entra nessa arena para
permanecer, quem for concursado - no ensino,público -
e no particular, por referências e prestação de
serviços. Mesmo assim, se o professor não for
competente e não estiver numa dinâmica de
crescimento e busca, os alunos, as leis do mercado ou
ele mesmo decidem por sua demissão. Lentamente o
" fazer bico" na Escola, está
desaparecendo.
Folhando
os Parâmetros Curriculares,( da Educação Infantil,
Fundamental, Ensino Médio e Técnico) que são uma
explanação da LDB 9394/96, como se pensa o perfil do
professor, além do que já se disse?
Deseja-se
um professor de bem com a vida, humano, feliz,
idealista, capaz de dar sentido à vida e ao que faz.
Que viva na linha do SER - objetivo máximo da Educação
- que exercite a paciência cronológica e histórica.
Tenha ele compromisso com a vida e os valores como a
ética, a sensibilidade, a estética, a cidadania, a
solidariedade, a verdade, o respeito e o bom senso.
Norteie-se por três pilares de princípios, previstos
na explanação dos parâmetros: Princípios estéticos:
que desenvolvem a estética da sensibilidade,
estimulam a criatividade e o espírito inventivo;
Princípios Políticos: que propõem a política da
igualdade, do direito e da democracia, cuja arte se
expressa no aprender a conviver; Princípios éticos:
que visam a ética da identidade: inserção no tempo
e no espaço, onde aprender a ser é o objetivo máximo.
Deseja-se
um professor que se dirija pelos princípios
norteadores da UNESCO para a Educação do Século
XXI: Aprender a conhecer, unindo teoria e prática.
Aprender a fazer, aprender a conviver, aprender a ser.
A sua
maior preocupação deve ser em formar seres humanos
capazes e seguros, com valores solidamente construídos,
não fixados no vestibular, mas voltados para a
sociedade e seus desafios tecnológicos. O professor
deve assumir um papel diferenciado, procurando estar
sempre atualizado e consciente de que o melhor mestre
é aquele que debate e questiona, não apenas
introduzindo o aluno na matéria, mas também
fazendo-o questionar, duvidar, pesquisar. O
aprendizado em equipe e os trabalhos em grupo devem
ser dos pontos fortes de sua metodologia de ensino.
Seu papel educativo é entendido como o de preparar os
alunos para o exercício da cidadania, para o trabalho
em geral e para o desenvolvimento de habilidades e de
competências, visando a intervenção ética positiva
na sociedade, com argumentações conscientes,
resultantes da aplicação de conceitos na resolução
de problemas contextualizados e relevantes.
O
novo Profissional do Ensino é aquele que desenvolve
as competências para continuar aprendendo, de forma
crítica, em níveis mais complexos de estudos. Essas
competências são de nível cognitivo, cultural,
psicomotor e sócio-afetivo.
Segundo
o Secretário de Educação Média e Tecnológica, Ruy
Leite Berger Filho, "o conceito competências
tem como referências básicas a epistemologia genética
de Jean Piaget e a lingüística de Noan Chomsky. Uma
concepção básica os reúne entre os que formulam
suas teorias a partir da noção de que a espécie
humana tem a capacidade inata de : construir o
conhecimento; de construí-lo na interação com o
mundo; de referenciá-lo e significá-lo social e
culturalmente; de mobilizar este conhecimento frente a
novas situações de forma criativa, reconstruindo no
desempenho as possibilidades que as competências, ou
os esquemas mentais, ou ainda a gramática interna,
permitem potencialmente." As competências,
segundo o mesmo autor, são ações e operações que
utilizamos para estabelecer relações com e entre
objetos, situações, fenômenos e pessoas que
desejamos conhecer. São operações mentais
estruturadas em rede que, mobilizadas, permitem a
incorporação de novos conhecimentos e sua integração
significada a esta rede. As habilidades decorrem das
competências adquiridas e referem-se ao plano
imediato do saber fazer.
Nesse
item adentramo-nos, então, na elaboração do currículo
de cada uma das três grandes áreas:Área das
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias; Área das Ciências
da Natureza, Matemática e suas Tecnologias; Área das
Ciências Humanas e suas Tecnologias. Pressupõe-se
que não se abandone a transmissão dos conhecimentos
ou a construção de novos conhecimentos - necessários
na construção de competências. O centro da proposta
curricular é o processo da construção, apropriação
e mobilização dos saberes significados. Se o
professor conseguir fazer isso, estará integrando o
que está fora dos muros da escola; ele reconhece a
multiplicidade de agentes e fontes de informação,
apropria-se deles; articula o passado e o presente,
projetando o futuro. O personagem central do trabalho
pedagógico todo, é o aluno e sua aprendizagem.
Requer-se também um foco na qualidade e na autonomia
da escola e do professor, cujo objetivo é fazer
aprender.
Podemos
enfatizar ainda que o Profissional do Ensino usa,
ensina e propõe o uso de tecnologias básicas: redação
- representação e comunicação; informação -
investigação e compreensão; computação -
contextualização sócio-cultural. Deduz-se que é um
agente da revolução do conhecimento, alterando o
modo de organizar o trabalho e as relações sociais
do seu meio.Desenvolve conceitos, idéias, a investigação,
a pesquisa e o questionamento. Levanta hipóteses,
produz e faz produzir o conhecimento; promove relações
interdisciplinares, sociais, políticas, afetivas, de
espaço e tempo. Faz pensar e procura soluções
alternativas. Maneja a tecnologia do computador, dos
micro-sistemas, micro-eletrônica, serve-se das
linguagens icônicas, corporais, sonoras e formais.
Quando
se fala do perfil do Profissional do Ensino, nos Parâmetros
Curriculares5, estamos diante da
utopia, daquilo que aspiramos ser e nunca chegamos.
Precisamos de estrelas que nos estimulam e nos dão o
norte. Mas cá, em baixo, continuamos com os nossos pés
de barro e queremos ser felizes e tornar os outros
felizes através da nossa profissão de ensinar "
a aprender conhecer, aprender a fazer, aprender a
conviver e aprender a ser."6
1 Maria Lourdes Urban
- Diretora do Colégio Rainha dos Apóstolos, SP;
mestranda da Unicamp e integrante do GRUPO DE ESTUDOS
SOBRE TRABALHO, EDUCAÇÃO E CULTURA, coordenado pela
Dra. Maria Inês Rosa.
2 SANTOS, Clovis Roberto dos. Educação Escolar
Brasileira. Estrutura Administração Legislação. Pioneira.1999.
3 SILVA, Elzamir G & TUNES, Elizabeth. Abolindo
mocinhos e bandidos. O professor o ensinar e o
aprender. Brasília. Editora Universidade de Brasília,
1999.
4 Revista de Educação AEC. Ano 28 - n. 113,
out/nov.1999.
5 LDB 9394/96 art. 13
6 LDB 9394/96 art. 13
Autor:
Maria Lourdes Urban
Diretora
Colégio Rainha dos Apóstolos
Obs.: esta entrevista foi extraída do
site Estação Educação. Para mais informações acesse:http://estacaoeducacao.starmedia.com