História do professor interfere no uso que faz da tecnologia
Entrevista/ Nilda Alves
ELIANE BARDANACHVILI

O contato do professor com o magistério está longe de começar em seu curso de formação. Afinal, como aluno, desde criança, ele conheceu professores, conviveu dentro de uma sala de aula, de onde traz boas e más recordações. A história de vida do professor - que inclui não só sua experiência como aluno, anos antes, mas sua vivência em diversos outros contextos, na família, em um movimento sindical, na igreja - é sempre levada para escola e vai interferir de forma definitiva na maneira como ele recebe e se apropria das novas tecnologias. Assim, trabalhar com televisão ou computador na escola é muito mais do que contar com belos vídeos ou softwares interessantes. ''Para fazer programas de televisão para professores, ou se apela para quem pensa educação ou para quem sabe fazer televisão. Mas como a recepção disso se dá na escola? Como acontece a relação do professor com o produto criado?'', é o que indaga a pesquisadora Nilda Alves, professora titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e presidente da Associação Nacional de Pesquisas em Educação (Anped), em entrevista ao JORNAL DO BRASIL. Para Nilda, faltam, hoje, estudos mais profundos sobre a recepção das novas tecnologias. ''É preciso ouvir o professor'', resume Nilda, à frente da pesquisa Memória de professoras sobre televisão: a reprodução, a transmissão e a criação de valores, na relação escola-televisão. Para ela, o veículo é importante, mas nem sempre terá o maior peso na formação da pessoa, como se acredita, justamente porque, ao receber o que a televisão traz, o espectador estará impregnado também de sua história. Nilda defende que, para se tornar um bom usuário das novas tecnologias, o professor, assim como seu alunos, deve ser também produtor. ''Hoje, a escola recebe uma televisão, boas fitas de vídeo, mas não recebe uma máquina de fazer vídeos''.
- O que é preciso pesquisar, hoje, sobre a relação entre professor e televisão na escola?
- Temos um grupo que, há mais de dez anos, vem trabalhando com a idéia de que é muito difícil propor mudanças de qualquer tipo na escola, sem que se entenda, que se conheça o que, efetivamente, se cria no cotidiano da vida escolar. Concluímos que não se pode entender o processo da escola, só a partir da proposta de reformas, a partir do pensamento oficial, formulado na academia ou pelo governo. É preciso ir à escola e deixar falarem os sujeitos dessa cultura escolar - o professor, os alunos, os funcionários - para que se entenda de fato o que é desenvolvido ali. É preciso saber que o que se vê na escola resulta de uma rede que se forma com outros espaços cotidianos, como a família e a igreja. Tudo isso está dentro da escola. Ali, há sujeitos de cultura, não pessoas obedientes, unicamente receptoras e reprodutoras. Pertencem, de fato, a múltiplas redes culturais, trazidas ali para dentro.
- Por que é importante a compreensão dessa diversidade, ao lidarmos com o tema televisão na escola?
- Hoje, utiliza-se largamente a televisão na formação do professor, na sua ação pedagógica, com programas especialmente criados para isso, como o do Ministério da Educação (TV Escola). Mas como fazer isso sem que se saiba como cada professor recebe e lida com esse instrumento? É preciso ouvir o professor e verificar a memória que ele tem das múltiplas experiências que já viveu com televisão.
- Isso vai interferir na forma como ele vai se apropriar do que recebe?
- Sim. Em nossa pesquisa, dividimos os professores em três gerações: a que viveu o momento em que a televisão chegou ao Brasil e em que as famílias não tinham cada uma o seu aparelho; outra geração é aquela que viveu quando a televisão generalizou-se. A terceira é a criada dentro de um quadro em que a televisão está em todas as casas. Há, ainda, uma quarta geração, que vai ser pesquisada, que é a dos alunos. Estamos trabalhando com depoimentos, conversas, a história que contam sobre o contato com a televisão.
- E o que se ouve dessas diferentes gerações?
- Concluímos que, desde a entrada da televisão no Brasil, ela é motivo de estabelecimento de relações. Entre os professores da primeira geração, é difícil a referência à televisão como algo genérico. Eles falam neste ou naquele programa do qual se lembram. Não há da parte deles uma teorização sobre televisão. Com a segunda geração, ainda vamos trabalhar. Já a terceira refere-se à televisão, como uma instituição. Ao mesmo tempo em que fala do uso da televisão, fala de teorias referentes ao veículo. Com essas constatações, percebemos como a televisão, de uma forma ou de outra, sempre esteve na escola e que o professor dialoga de formas diferentes com essa tecnologia.
- As formas pelas quais a televisão vai ser recebida resultariam em nuances diferentes de influência que ela exerce?
- Houve uma primeira leva de estudos sobre a televisão que diziam que ela era um grande aparato de criação ideológica. Como, em nosso trabalho, partimos da proposta de que ''somos uma rede de subjetividades formada em diversos contextos cotidianos'' (Boaventura de Sousa Santos), entendemos que a televisão é um destes contextos, não o único. Tem papel importante na construção de conhecimento e na formação de valores, mas sempre se levando em conta uma troca entre diversos contextos. Não basta que apareça na televisão uma relação amorosa entre dois rapazes, para que o comportamento dos jovens mude. Essa relação não é passada rapidamente para toda a sociedade, apenas porque está na televisão e sim porque outros fatores estão presentes.
- Neste raciocínio, não se deve atribuir à televisão a responsabilidade por gerar atos de violência em crianças e jovens, que, por exemplo, pegam o revólver do pai e atiram no colega, porque se inspiraram em cenas que viram no vídeo?
- Esse jovem ou criança que cometeu o ato de violência precisava ter em casa o revólver, que, provavelmente, foi comprado pelo pai, pela família. A isso, soma-se o entendimento com o qual, provavelmente, ele deve ter convivido, de que é preciso matar, é preciso reagir. Com certeza, na minha casa, onde há televisão, esse acidente não ocorreria, porque não há revólver.
- A televisão não tem o peso que, geralmente, atribui-se a ela, então?
- Claro que a televisão tem papel importante, principalmente, em um país como o nosso, em que cresce o mercado editorial, mas que não há livrarias no interior; em que os leitores de jornal são, na verdade, de banca de jornal, com acesso só à primeira página. Mas a televisão não está sozinha, não é única formadora.
- De que forma o raciocínio que a senhora apresenta contribui para que se reavaliem as relações entre televisão e sociedade? Pode-se atribuir, sem susto, menos poder à televisão?
- Ao contrário, ao percebermos, levarmos em conta esses outros espaços e sua capacidade de transformar, criar, reproduzir, podemos atribuir o peso exato à televisão. A diversidade está posta.
- No uso da televisão como mídia educativa, o que muda, ao levarmos em conta essa diversidade?
- Hoje, para fazer programas de televisão para professores, ou se apela para a academia, ou se apela para técnicos de televisão, isto é, quem pensa educação ou que sabe fazer televisão. Mas como a recepção disso se dá? Como acontece a relação do professor com o produto criado? Há pensadores, como Canclini e Barbero (os intelectuais latino-americanos Néstor Garcia Canclini e Jesús Martin-Barbero), que mostram que é preciso verificar o que acontece, de fato, na recepção. A Microsoft, por exemplo, para resolver determinadas questões, cria grupos integrados pelo sujeito que entende de software, o que entende de hardware e o usuário. Sem o usuário, ela sabe que não vai dar um passo. Já há vários grupos de pesquisa começando a se voltar para o usuário da tecnologia. É algo em que não se estava pensando. Há uma pesquisa interessantíssima realizada com usuários de máquina de lavar roupa, que verificou que com aquele instrumento idêntico em todas as casas, era utilizado com nuances muito diferentes, determinadas por crenças, valores, adquiridos antes do uso daquela tecnologia. Vamos trazer, em junho, para um seminário, um professor francês que trabalha justamente com as tecnologias no cotidiano. Os professores participam de múltiplos contextos reais, que vão estar presentes em sua ação docente. Não são só normas governamentais e o curso universitário que os formam.
- Mas a escola precisa dar espaço para que a diversidade se apresente, não? Muitas vezes, a escola ainda busca moldar alunos e professores...
- Na verdade, a escola não tem outra alternativa. Com espaço ou não, as diferenças já existem dentro dela. Mesmo que isso tudo fique submerso. Diz-se que as escolas recusam-se a usar a televisão. Na verdade, o que é preciso saber não é se ela usa ou não, mas como se dão as relações cotidianas com essa tecnologia, pois essas relações existem, não têm como não existir. Mesmo que não haja o aparelho de televisão na escola, o aluno que ali está, o professor que ali está assistem à televisão, são televisores. No ambiente urbano, tem-se a presença da televisão até pela falta dela, e isso não pode ser ignorado.
- Que sinais existem de que se ignora a presença da tecnologia na escola?
- Há o caso de uma professora de Geografia que levou para os alunos mapas muito bem feitos por computador para dar sua aula. Os alunos interessaram-se não pelos mapas, mas pelo computador que havia realizado aquilo. A professora espantou-se com o interesse das crianças, que eram de população pobre e que ela acreditava estarem distantes do mundo da informática. Ela descobriu que, com toda a dificuldade, quatro das crianças já tinham computadores, em torno dos quais reuniam-se para fazer trabalhos e que já estavam ligadas à internet. A relação com a tecnologia faz parte da vida da escola.
- A partir dessas constatações sobre a influência que o usuário tem na eficácia da tecnologia, o que pode e deve se modificar?
- Estamos, ainda, em um momento de fazer as pessoas entenderem a importância que tem a recepção. Há um autor inglês que trabalha com estudos culturais que diz que é fácil exportar a teoria, o mecanismo, mas exportar a realidade é impossível, uma vez que ela vai se modificar de um local para outro. Comprar determinados programas muito bem feitos, no exterior, e colocar uma legenda em português, esperando que as pessoas entendam e trabalhem com aquilo, de nada adianta. Isso, aparentemente, é mais barato, mais rápido e mais eficaz. Mas, uma vez que não podemos controlar o que acontece lá na ponta, pode não valer de nada. Hoje, é fundamental que todas as propostas que utilizam televisão e computador na escola sejam acompanhadas, com estudos de recepção.

Mais que usuário, produtor
- Não se fazem estudos de recepção das tecnologias nas escolas?
- Ou se faz isso utilizando-se questionários superficiais, ou não se faz. E já há material para estudar isso. Um exemplo é o programa Salto para o Futuro (levado ao ar pela TV Educativa), que já se realiza há anos. Os professores que assistem mandam cartas, que devem estar acumuladas, mas que não são utilizadas para pesquisa. O TV Escola, do Ministério da Educação, com certeza, também está recebendo cartas dos professores. Onde estão essas cartas? Elas são ouro puro. É preciso trabalhar com essas coisas. Seria importante que grupos de pesquisas fossem chamados para estar no cotidiano das salas. Esse acompanhamento não pode ser quantitativo. Isso até existe, uma vez que os programas vêm acompanhados de questionários avaliativos. Mas eles não dizem tudo. Só mesmo estando presente lá, para, por exemplo, flagrar uma reação de tédio ou de entusiasmo, durante a exibição do programa, e começar a entender como o conhecimento vai sendo tecido naquele grupo.
- Seria inviável, afinal, projetos como o TV Escola, com programas únicos para uma gama enorme de receptores, de diversas realidades?
- É preciso ter-se a certeza de que o professor não aceita nada de cabeça baixa, passivamente. Cada um vai ter uma interferência individual, diferenciada para o que recebe, de acordo com suas redes anteriores de conhecimento. Não se trata de dizer que este conhecimento é bom ou ruim, mas que esse conhecimento formou esta ou aquela relação com as pessoas que assistiram.
- E o que se faria com essas informações?
- Uma coisa muito importante é, compreendendo e aceitando a existência dessa diversidade na recepção, fazer dos professores produtores também, para que se tornem bons usuários.
- Como se faz isso?
- Hoje, oferece-se à escola a televisão, o vídeo pronto, mas não se dá aos professores uma máquina de fazer vídeos. É preciso fazer o professor se descobrir capaz de criar um vídeo. A TV Pinel, por exemplo, tem feito isso. Torna pessoas produtoras de conhecimento. O professor não pode se restringir a olhar o que outros produziram. Ele e também os alunos têm histórias para contar. A produção local capta da realidade aspectos que grandes produções não captariam. Quando você domina a tecnologia, tem condições de melhor compreender aquela linguagem, aquela formulação.
- A televisão e o computador são ou não indispensáveis, afinal?
- Indispensável é o ar, a comida. Independentemente de ter ou não papel importante, o acesso às tecnologias é um direito, do professor e do aluno. Quando se constata, como o censo de 1990 constatou, que há mais televisões do que geladeiras nas residências, é claro que ela é um meio importante. O complicado é achar que, por determinados programas, se fará a educação. O que se vê na televisão tem papel educativo, mas nem sempre determinante.
- E o computador?
- A análise é a mesma que se faz para a televisão. Não se podem trabalhar propostas para o computador na escola, se não se fizer um trabalho de compreender como a percepção desta mídia se dá nos diferentes grupos, nas diferentes faixas etárias etc. O computador, embora seja produto extremamente individualizado no uso (diferente da televisão em torno da qual arma-se um esquema familiar, que exige decisões coletivas a respeito de quem vai assistir a o que e quando), ele já surge trazendo com ele uma rede, a internet. Uma série de pessoas têm trabalhado com as correspondências que se dão dentro da internet, que permitem acompanhar percepções, valores que vão surgindo. As escolas que têm salas de computadores, laboratórios de informática precisam criar formas de verificar como se dão as trocas entre os alunos, entre os professores, entre professores e alunos, como se dá essa recepção.
- Como as diferentes mídias, a televisão, o computador, o jornal, podem se relacionar?
- As pessoas devem poder, primeiro, poder ter acesso a tudo isso, conhecer tudo isso. Essas coisas todas precisam estar na escola, de maneira rica, variada, sem que se entenda o outro como mero receptor, mas como usuário. O professor não é escravo dos diferentes meios. Ele encontra a melhor forma de trabalhar, com o que está disponível. É preciso jogar na escola essa variedade de coisas e perceber como esses múltiplos meios estão sendo recebidos e de que forma interferem na construção do conhecimento.
- Como avaliar isso?
- Saber como um programa de televisão foi utilizado por um professor e por outro exige pesquisa qualitativa. Não se vão ter informações sobre o processo de criação do conhecimento nessas relações, com a tecnologia por dados quantitativos.
- E dentro da escola, como seus integrantes podem se organizar para que se criem espaços para essas trocas, para que cada um exponha as suas diferenças e para que, assim, se crie um ambiente de diversidade em vez de um ambiente homogêneo, padronizada?
- Vou dar um exemplo. Fiz um trabalho com alunos da Faculdade de Pedagogia da UFF, onde trabalhei muitos anos, no campus de Angra dos Reis sobre imagem. Um dos alunos foi às escolas para ver como cada uma trabalhava vídeo e televisão e constatou que havia uma série de produtos. Registro em vídeo de comemorações escolares, uso da câmera para fazer uma espécie de jornal da escola, uma quantidade enorme de trabalhos que levavam à apropriação dessa tecnologia pela escolas. Existem professores que começam a dar espaço para que um aluno possa, por exemplo, trazer o vídeo que um parente gravou de sua festa de aniversário. O professor começa, com seus alunos, a ser produtor e a entender que, dentro desses vídeos que produzem, há conhecimento. Se um grupo de crianças cria uma câmera com materiais diversos, como plástico, barbante, uma delas fica sendo o camera-man, a outra, o diretor de cena, isso é produção de conhecimento. As brincadeiras de médico, de casinha, são arranjos dos conhecimentos que as crianças vão construindo. E o professor, para produzir com os alunos, ele precisa se apropriar da tecnologia.
- Fazer leva a apropriar-se e pode tornar professores e alunos melhores usuários da tecnologia...
- Estamos fazendo um projeto com a prefeitura de Paracambi que inclui a criação de uma homepage sobre a educação local, produzido por professores, a partir de material recebido das escolas. Vão aparecer desenhos das crianças, fotografias dos patronos. Seria muito mais fácil para nós, com tanta gente boa em nosso grupo, produzir uma homepage para eles. Mas não é isso que deve ser feito. É preciso potencializar o professor em vez de pensar, aqui de fora, coisas fantásticas para ele. É preciso que nós nos submetamos a compreender o que eles são, como são, de que maneira pensam e agem, o que já estão fazendo. Isso é que vai dar força ao que já está na escola.

Entrevista cedida ao Jornal do Brasil, em 18/03/2001.
Site do Jornal: http://www.jb.com.br
Link da entrevista:http://www.jb.com.br/jb/papel/cadernos/emprego/2001/03/17/joremp20010317003.html